16 de dezembro de 2014

a triste felicidade de não ser óbvio


"esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência"

É foda ter 20 e tantos anos no Brasil hoje. É foda ser jovem, é foda trabalhar no mundo corporativo. Mas foda, foda mesmo é ser jovem, trabalhar no mundo corporativo e ser de esquerda. Por que aí, meu amigo, você tá perdendo a razão. Aí fica difícil dos companheiros entenderem... fica difícil pro chefe ramphastos entender, complica pra todo mundo, sabe?

Não dá pra você querer trabalhar pro sistema, fazer a roda do capitalismo girar e ao mesmo tempo querer bradar aos quatro ventos que se preocupa com o bem estar coletivo, que é favor da faixa exclusiva de ônibus, que acha massa as ciclovias e que tá cagando pra vaga de estacionamento que o comércio vai perder porque vias são para trânsito e não pertencem a ninguém. Porque quem é de esquerda de verdade é comunista, socialista, essas coisa tudo aí que o Che Guevera, o Fidel e o povo todo lá de Cuba acham bonito, e tem que viver na pobreza, mostrar que é santo igual São Francisco de Assis e sair pelado pelas ruas.

E daí piora tudo se você não nasceu pobre, mas ainda assim se preocupa com a situação de miséria que vivem milhões de seres tão humanos quanto você. Você nem tem nada a ver com isso, fica aí querendo fazer revolução preguiçosa de Facebook e ler Gregório Duvivier... essa esquerda caviar, tão diferente de quem pintou a cara e foi pra rua pelas Diretas...

E aí o cara que foi educado pra pensar no próximo independente da sua própria condição, o cara que lê, que procura saber, que se solidariza, que enxerga um pouco além. Que entende política como o ato de governar para a maioria e não para quem pode mais. Esse cara se pergunta todo dia se as crenças dele não estão erradas porque na real ele é pouco aceito em todos os círculos. E o esforço do dia-a-dia para evitar certos assuntos aqui, e outros assuntos acolá... é um esforço chato pra caramba! E esse moço que quer um pouco de liberdade para fazer as suas próprias mudanças dentro de um contexto altamente complexo, como é o universo das empresas, mas ainda assim dotado de alguns valores, esse é julgado e condenado por não tomar posições extremas.

E onde foi que as posições extremas levaram dezenas de sociedades ao longo da história do mundo? E por que não podemos pensar no mundo corporativo como um catalisador de sonhos? Como uma plataforma de geração de renda, de empregos, e portanto de dignidade? É porque tem escândalo na Petrobrás? É porque tem empresa que ainda usa trabalho escravo? É porque o CEO é milionário e eu não? Até dava pra concordar, não fosse essa mala-sem-alça-porém-fundamental necessidade de um meio termo. 

Aposto que se eu conhecesse algum jovem que trabalha no mundo corporativo e é de esquerda, ele diria que torce para que as próximas gerações de comandantes das empresas brasileiras enxerguem sua grande importância dentro da sociedade e continuem ganhando muito, muito dinheiro que possa ser transformado em empregos, em educação, em projetos de responsabilidade social... aposto também que ele diria que não quer que o Brasil vire a Venezuela e muito menos os Estados Unidos. E que no fundo, ele reza todo dia pro universo dar um jeito em tudo que tá errado na direita, na esquerda, arriba y abajo. Por que meu amigo, tem coisa errada até dentro da sua casa, é só você dar uma olhadinha mais atenta...

Mas como o meio termo precisa existir e nem tudo é feito de chorumelas, essa gente estranha que gosta de ouvir Elis-rainha, Valesca-sua-diva e Beethoven-quando-tá-no-clima, às vezes encontra umas espécies raras como a sua. Então, eis que a triste felicidade de não ser óbvio é compreendida e faz algum sentido. E aí a conversa é mais honesta, as dúvidas saem do esconderijo secreto para dar lugar aos debates pouco preconceituosos e os sorrisos surgem junto com um pouquinho de esperança e uma taça de vinho.

5 de novembro de 2014

Carta à 2014

2014, o que falar sobre esse ano que nem acabou, mas que já considero pacas?

Ainda se vão dois doze avos de você, mas já me sinto na obrigação de agradecer. Por isso, proponho aqui alguns brindes...

Ao orgulho de alcançar algumas conquistas com méritos próprios. E à gratidão por toda ajuda, apoio e torcida.

Ao amor de um tamanho que eu ainda não conhecia. Ao sentimento maravilhoso de sentir-se completa em outra pessoa.

Ao frio na barriga de trocar o certo pelo não tão certo e aos poucos perceber que toda decisão tem um toque maior do universo, proporcional ao tamanho da nossa fé.

À felicidade de ter amigos que, perto ou longe, provam dia após dia que a amizade é uma das poucas coisas que valem árduas lutas contra a rotina.

À idade que traz consigo um entendimento cada vez maior do valor inestimável que a família tem na nossa existência.

E, finalmente, ao prazer de saber que apesar dos problemas cada vez mais latentes, o importante continua sendo aquilo que importa: o bem. Saber que para cada discurso de ódio, preconceito e individualismo sempre existirá um olhar para o bem-estar coletivo, um voluntário dedicado, um bom dia generoso e um ato de gentileza.

Obrigada 2014!
E um brinde à 2015 que vai ter que rebolar pra te superar!

9 de junho de 2014

Democracia padrão FIFA

Recentemente coloquei a minha opinião sobre a demissão de metroviários em greve de forma um pouco irônica (a ironia faz parte da minha alegria de viver) em uma rede social. O que se sucedeu foi um debate bastante acalorado entre partes desconhecidas. E isso me levou a pensar.

Sou uma defensora ferrenha do debate, da discussão e da argumentação. O direito ao debate é natural ao cidadão (alô liberdade de expressão!), assim como é constitucional o direito à greve. Além disso, discutir um tema por vezes é a única maneira de mantê-lo vivo, de fomentar o raciocínio sobre a questão e de, quem sabe, buscar uma solução.

Mas, como todo direito, juntam-se a ele alguns deveres, que na minha própria Constituição incluem, mas não se limitam a: o cidadão deve se informar sobre o assunto a ser debatido, em diversas fontes; o cidadão deve enxergar o tema dentro de um contexto humano, excluindo as dicotomias tolas e os partidarismos desnecessários; o cidadão deve usar de boa educação; o cidadão deve formular uma ideia própria, a partir de sua própria moral e experiências, mas jamais se fechar a mudanças de ideia e opinião que venham a ocorrer pelo bem de todos.

PAUSA. Mais sobre a beleza das mudanças de ideia nesse texto fantástico da Marina Viana.

O fato é que o debate pelo debate é tão inútil quanto gritar sozinho no deserto. E fico intrigada quando vejo que um monte de boas ideias não são suficientes para sustentar uma discussão e que as piadas (piada não é ironia, qualquer coisa pergunta pro Google) são usadas como apoio para cada argumento. O ataque pessoal, seja ao debatedor à nossa frente ou à ideia apresentada, não contribui para a construção saudável de um universo de opiniões mais rico. E aí, nesse debate aqui entre eu e eu mesma, concluí que essa tal democracia é negócio para poucos. Não existe democracia padrão FIFA. Enquanto não soubermos trocar ideias e experiências de maneira mais consciente, ainda precisaremos lidar com milhares e milhares de vândalos digitais ou black blocks do debate. #imaginaprasempre

12 de maio de 2014

Ame devagar

A sociedade dos amores líquidos pode ser cruel. E não é incomum ouvirmos os lamentos tristes de quem se sente sozinho em um mundo tão conectado. Se antes o medo de estar sozinho era grande, ainda maior é agora o medo de ficar sozinho. São tantos os que pensam que não há nada ou ninguém para eles nesse mundo...

Já me peguei pensando na fragilidade das relações e na complexidade de sentimentos que se tornam ainda mais complexos diante de nossa falta de simplicidade. E simples, meu amigo, é amar devagar, com generosidade e bondade.
O amor é paciente, o amor é bondoso.
Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
Não maltrata, não procura seus interesses,
não se ira facilmente, não guarda rancor.
O amor não se alegra com a injustiça,
mas se alegra com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
(1 Coríntios 13)
Quando você achar que não há nada ou ninguém para você nesse mundo, pare tudo. Pare tudo o que está fazendo e fique assim bem quieto, ouvindo o que o universo tem a te dizer. O universo conversa com a gente, meu amigo. Pode ser que ele sussure, escute! E o amor, aquele verdadeiro, capaz de arrebatar um coração, pode estar escondido atrás de uma conversa simples, de um conhecido antigo e até mesmo – por que não? – atrás de uma mensagem de Whatsapp.

Eu espero que você encontre o amor, meu amigo. E que quando encontrar ame devagar e sem complexidades. Com um pouco de fé tudo o que é líquido pode se tornar sólido.