Coisas como essa me deixam pensando durante muito tempo: acabo de chegar em casa da faculdade, são quase 11 da noite. Entrei no ônibus e sentei na frente. Um menino, vestido de social e com uma mochila nas costas (provavelmente estudante e estagiário) tinha somente 2 reais para pagar a passagem. Faltava 30 centavos e o cobrador não o deixou passar. Fiquei olhando ele ir falar com o motorista, que foi curto e grosso: meu trabalho é de motorista e não de cobrador. A passagem custa dois e trinta. O menino então pediu que ele parasse no próximo ponto para ele descer. Neste momento, estendi meu cartão e ofereci a ele. Ele ficou visivelmente envergonhado, agradeceu e disse que ia descer no próximo ponto. Eu insisti, ele me explicou que esqueceu de passar no banco (estava tão embaraçado que achou que precisava me explicar o motivo dele não ter trinta centavos no bolso). Insisti mais uma vez, pois sabia que descendo no meio do nada, às dez e meia da noite, mesmo que achasse um banco não poderia mais sacar. Falei que ele desceria à toa. Foi inútil. Ele desceu. Daí surgiram muitos pontos na minha cabeça:
1) O motorista, apesar de estar fazendo o trabalho dele, não precisava ser tão grosso. Digo sem nenhum problema, que todas as pessoas que são grossas sem motivo aparente deveriam explodir. E que fique claro que se o chuveiro da sua casa quebrou e você tomou banho gelado de manhã e por isso passou o dia de mau humor, isso não é problema meu. Eu te fiz uma pergunta, você não precisa ser simpático, mas no mínimo respeitoso, caso seja pedir demais um pouco de educação.
2) Caso o protagonista da história estivesse de camiseta suja e rasgada e chinelo de dedo velho, o cobrador com certeza o mandaria passar por baixo da catraca. Seja por dó, ou por medo de ser assaltado. Já o menino, de mochila e social, deve ter rapidamente sido tachado de “filhinho de papai” e o cobrador se sentiu na obrigação de puní-lo por isso ou se divertir às suas custas. Puro preconceito nos dois casos. Lastimável.
3) O motorista teria deixado de bom grado uma mulher bonita descer pela porta da frente. Muitas vezes eu já esqueci o cartão ou o dinheiro, e também por isso tentei ser solidária ao menino, e pedindo ao condutor desci pela porta dianteira sem nenhum problema.
4) Orgulho é uma bosta. O menino deve estar até agora pensando no que vai fazer, poderia ser assaltado lá no meio do nada onde desceu ou teve que pegar um táxi, pagar caro e pedir para a mãe pagar na porta de casa. Tudo isso para quê? Se eu ofereci o cartão foi porque não faria falta, caso contrário eu não teria oferecido. Ele ficou tão envergonhado que pela cabeça dele deve ter passado que as pessoas estavam achando que a situação era um golpe rotineiro. Não sei. Só sei que um gesto que para mim parecia tão simples, para ele soou muito embaraçoso. Meu irmão morou na Califórnia e me contou que lá é muito, mas muito comum mesmo as pessoas darem um dólar a quem não conhecem para pagar a passagem em caso de necessidade.
Tá tudo errado, sabe? Todo mundo errado... minha mãe falou que ele provavelmente teria aceitado passar meu cartão se eu oferecesse ficar com os 2 reais. Ah, vá, isso nem passou pela minha cabeça. Tudo o que contei aconteceu em menos de um minuto. Se eu estivesse pensando, poderia ter dado para ele os 30 centavos que eu tinha na bolsa... droga! Espero que ele tenha chegado bem em casa!
